CAPÍTULO 6: PERSONAGEM E CARACTERIZAÇÃO
Toda e qualquer arte serve ao propósito de descobrir e revelar novos horizontes de vida e novas facetas nos seres humanos. Um ator não pode dar ao público novas revelações se apenas se mostrar invariavelmente ele mesmo no palco. (…) Assim que delinear essas características e qualidades do seu papel – ou seja, compará-las com as suas próprias, tente imaginar que espécie de corpo uma pessoa preguiçosa e inepta teria. Talvez você ache que ela poderia ter um corpo rechonchudo e atarracado, com ombros caídos, pescoço grosso, longos braços pendentes e uma cabeça grande e macia. (…) Você imaginará que no mesmo espaço que ocupa com seu próprio corpo real existe um outro corpo – o corpo imaginário de sua personagem, que você acabou de criar na sua mente.
Vista-se, por assim dizer, com esse corpo; ponha-o como se fosse um trajo. Qual será o resultado dessa “mascarada”? Pouco depois (ou talvez num abrir e fechar de olhos!), você começará a sentir-se e a pensar-se como uma outra pessoa. Essa experiência é muito semelhante à de uma verdadeira mascarada. Você já notou, na vida cotidiana, como se sente diferente com roupas diferentes? Não é uma outra pessoa quando veste um roupão ou um smoking; quando está dentro de um terno velho e puído ou de um novinho em folha? Mas “vestir o corpo de outro” é mais do qualquer traje ou costume.
Essa adoção da forma física e imaginária da personagem influencia dez vezes mais fortemente a psicologia do ator do que qualquer roupa!
“A ALMA DESEJA HABITAR NO CORPO PORQUE, SEM OS MEMBROS DO CORPO, ELA NÃO PODE AGIR NEM SENTIR.”
LEONARDO DA VINCI
CAPÍTULO 4: ATMOSFERA E SENTIMENTOS INDIVIDUAIS:
Existem numerosos meios, puramente teatrais, pelos quais se criam atmosferas no palco, ainda que não sejam indicados pelo autor, luzes com suas sombras e cores; cenários, com seus contornos, aparências e formas de composição; efeitos musicais e sonoros; agrupamentos de atores, suas vozes, com toda uma variedade de timbres, seus movimentos, pausas, mudanças de ritmo, todas as espécies de efeitos rítmicos, marcações e maneiras de atuar. Praticamente tudo que o público percebe, no palco pode servir ao propósito de realçar atmosferas ou mesmo recriá-las.
CAPÍTULO 3: IMPROVISAÇÃO E CONJUNTO
“Se um ator se limita meramente a declamar as falas fornecidas pelo autor e a executar o “negócio” ordenado pelo diretor, não procurando qualquer oportunidade para improvisar independentemente, ele se torna um escravo das criações de outros e sua profissão lhe foi simplesmente emprestada. É um erro ele acreditar que o autor e o diretor já improvisaram para ele e que sobra muito pouco espaço para a livre expressão de sua própria individualidade criativa. Essa atitude, lamentavelmente, predomina entre grande número de nossos atores atuais.
Entretanto, cada papel fornece a um ator a oportunidade de improvisação, de colaboração e, na verdade, de co-criação com o autor e diretor. Esta sugestão não implica, é claro, improvisar novas falas ou substituir por outros os objetivos estabelecidos pelo diretor. Pelo contrário. As falas confiadas a um papel e as instruções e orientações do diretor constituem as bases firmes em cima das quais o ator deve e pode desenvolver suas improvisações. Como ele declama suas fala e como cumpre as instruções são as portas abertas para um vasto campo de improvisação. Os “como”de suas falas e instruções são os caminhos através dos quais ele pode expressar-se livremente. Mais do que isso, existem outros e inúmeros momentos entre as falas e as orientações em que o ator pode criar maravilhosas transições psicológicas e adornar e ampliar por conta própria o seu desempenho, em que pode exibir seu verdadeiro engenho artístico. Sua interpretação da personagem como um todo, até as ínfimas características, oferece um vasto campo para suas improvisações. Ele precisa apenas começar por recusar a representar-se a si mesmo em vez de representar uma personagem, ou por rejeitar o recurso a clichês cediços.
Se ele simplesmente deixar de considerar todos os seus papéis como “lineares” e tentar descobrir alguma boa caracterização para cada um deles, também terá dado um passo gratificante no sentido da improvisação. O ator que não sentiu a pura alegria de se transformar no palco a cada novo papel que interpreta, dificilmente pode conhecer o significado real e criativo da improvisação. (…) Porque a real e verdadeira liberdade na improvisação deve basear-se sempre na necessidade; caso contrário, não tardará a degenerar em arbitrariedade ou indecisão.
“A criação não se inspira naquilo que é, mas no que pode ser; não no real, mas no possível.” RUDOLF STEINER